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PiTacO do PapO - 'A Pé Ele Não Vai Longe' | 2018

NOTA 9.0

Vício, quadrinhos e redenção 

Por Karina Massud @cinemassud 


Era um dia comum na vida de John Callahan e ele, como todo alcoólatra, acordou sem ressaca mas com síndrome de abstinência, e antes que a tremedeira começasse, ele rumou pra loja de bebidas mais próxima. Seguiu (não sem sentir vergonha e culpa)  com a bebedeira de sempre, balada e farra com o amigo Dexter, e de festa em festa eles acabaram num grave acidente de carro. Foi a última vez  que John andou.

Gus Van Sant é um diretor que sempre soube contar histórias de pessoas diferentes que de alguma forma não se encaixam na sociedade e que  inspiram a platéia  (vide “Encontrando Forrester”, “Milk: A Voz da Igualdade” e “Gênio Indomável”) . Em “ A Pé Ele Não Vai Longe”, longa   baseado no livro autobiográfico de John Callahan,  conhecemos a vida do cartunista que  depois de uma tragédia descobre um rumo na vida.



Joaquin Phoenix estrela essa cinebio e nos brinda com (mais) uma performance brilhante: o bêbado gente boa que usa de todas as desculpas do mundo pra encher a cara...sou adotado, aleijado, etc. A nova situação como tetraplégico o deixa ainda mais revoltado com o mundo, e mesmo depois do acidente ele continua firme na birita. Apesar de melancólico, o personagem tem uma pitada de sarcasmo e muito magnetismo (o velho e bom “borogodó”),  o que gera uma empatia imediata por ele. A tristeza nos olhos expressivos mostrados em muitos closes, a angústia e o desespero de quem luta por migalhas de informação sobre a mãe que o abandonou : tudo  nos faz torcer por ele, pra que tudo passe a dar certo na sua vida tão conturbada.

O elenco traz uma junção improvável mas certeira de atores: Jack Black é Dexter, o bebum que acaba por levar o amigo pro buraco. Jonah Hill  está incrível como Donnie, o milionário gay e extravagante  que é o padrinho de Callahan no AA, seus papos e reflexões sobre a vida são sensacionais. Rooney Mara (de quem nunca fui grande fã desde que a alçaram à condição de atriz cool), é a terapeuta e posteriormente aeromoça e namorada de John. E por fim, mas não menos importante, a cantora Beth Ditto, que eu desconhecia atuar, como uma colega da terapia em grupo.

A narrativa é fragmentada , ela vai e volta entre momentos presentes e passados da trajetória do protagonista, suas bebedeiras sem fim, o drama de escondê-las das pessoas, relances do acidente que tirou seus movimentos e a longa internação,  até chegar à descoberta da verdadeira vocação pra desenhista de charges , o encontro com a sobriedade e com o amor. Um turbilhão de emoções difíceis de lidar vem à tona: arrependimento,  vergonha, auto-sabotagem e flagelo.

O ponto alto do filme são as reuniões dos Alcoólicos Anônimos: cada um dos participantes abrindo seus corações, expondo suas feridas e tentando exorcizar seus fantasmas, reparando os erros cometidos e mágoas causadas através dos 12 passos do grupo de ajuda. Vale destacar também os quadrinhos ousados e hilários (do tipo que com uma imagem provoca gargalhada fácil) de Callahan que permeiam as cenas do filme e também a bela trilha sonora de Danny Elfman.

“A Pé Ele Não Vai Longe” tem muito drama mas também bastante humor negro, e acreditem, leveza no belo resgate do protagonista. Como boa história real, ele não tem um final perfeito, mas com certeza faz sorrir e deixa um sentimento bom no peito.

Super Vale Ver !



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