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PiTacO do PapO- 'Democracia em Vertigem' | 2019

NOTA 8.0

Registro obrigatório

Por Sérgio Ghesti @meuhype


A Netflix apresenta e distribui o documentário que movimentou o festival de Sundance com um retrato íntimo e simbólico de Petra Costa sobre a política tóxica e caótica feita no Brasil e também como esse momento nefasto do país representa a tendência mundial de retrocesso político. Os desdobramentos mostram o surgimento de uma "direita" no Brasil que busca o poder a todo custo sem obedecer qualquer tipo de democracia, com argumentos estapafúrdios para fomentar o ódio ao seu inimigo mais feroz, a "esquerda" brasileira e ainda pior, com forte aclamação popular pressionada pela  alienação em massa. Esse é o retrato do Brasil, mas poderia ser de qualquer lugar do mundo. A política primitiva realizada no país é mostrada ao mundo e traz a seguinte reflexão: Existe uma democracia? Se sim, como nós brasileiros assistimos a todos os acontecimentos dos últimos anos e deixamos o mais bizarro golpe de estado manchar nossa história? 


O documentário trabalha os vícios de pensamentos que tomaram conta de toda população principalmente em reflexo da última eleição, onde se mostra como a relação promíscua da luta pelo poder com a política deu voz a mediadores de um espetáculo, seja em prol de dinheiro, religião ou apenas para chegar ao poder. O que assistimos em grande parte são políticos em um círculo fechado distraindo a mídia e o povo em uma falsa luta contra o próprio sistema que eles corrompem, o argumento principal usado constantemente é uma luta contra a corrupção com total foco em derrubar o Partido dos Trabalhadores em ações questionáveis, seja por um impeachment forçado pelo partido do candidato derrotado na eleição de 2014, uma operação Lava Jato pouco autêntica sobre seus princípios e objetivos, ou de uma explicação em Power Point pouco convincente para justificar a prisão do ex-presidente Lula. Essa colagem de fatos é um retrato furioso, íntimo e assombroso do recente recuo do Brasil, mostrando um país sendo lançando diretamente para as mandíbulas abertas dos mesmos pensamentos que causaram males como a ditadura. 

Os fatos são narrados suavemente por sua diretora acompanhados de sua visão pessoal e poética juntamente com uma trilha sonora que contagia e assusta na mesma medida. Essa interessante visão dos acontecimentos e escândalos políticos do Brasil é lançada ao expectador quase como uma lição de história, que certamente será censurada nas escolas pelo atual governo e seu disfarce da "escola sem partido". As pessoas precisam ver 'Democracia em Vertigem' e discutir suas próprias ações e reações, debater idéias sem militância e com os fatos expostos, algo que o documentário resume com várias imagens de como o Brasil se comportou vendo seus líderes caírem. Esse exercício constantemente é mostrado no filme com entrevistas a pessoas comuns, de fora dos holofotes, com reações tímidas, contidas mas que possuem seu valor. Os fantasmas que assolam as duas vertentes de pensamento mostram o que já sabemos: um país rachado ao meio embasado com símbolos e imagens documentais. Todo trabalho histórico possuí um ótimo registro que enriquece ainda mais o material e foge da abordagem didática de outro  documentário, 'O Processo' (2018) ou mesmo das  articulações político-partidárias como abordado em 'Excelentíssimos' (2018) - que infelizmente nem conseguiu chegar aos cinemas por motivo óbvio - o filme de Petra fecha muito bem esse ciclo de boas obras que tentam explicar um pouco dessa confusa situação política, agora com a oportunidade de alcançar um número maior de expectadores. 

A geração que consume Netflix sem qualquer filtro vai conhecer o nascimento da era do "fake" patriotismo disfarçado de autoritarismo e fundamentalismo religioso misturado com a adoração ao fascismo e o uso do militarismo como ferramenta de ordem, causando um retrocesso histórico no país. Esse cenário parece uma prévia do que está vindo para toda a América em um fluxo da política corrosiva do presidente americano Donald Trump somado a um país tentando se reconstruir da pior maneira possível, preso a esse passado nebuloso. Lula, Dilma e o PT foram os vilões eleitos por uma corrupção sistêmica e estrutural realizada por quase todos políticos e partidos, mas são eles que pagam o preço de todos, desgastam sua imagem em um caminho sem volta e de um futuro sem qualquer chance de retratação do peso da culpa. A obsessão da militância verde e amarela que se formou pra derrubar o PT usando pensamentos retrógrados, fake news e políticos laranjas, não se mostra nada consistente para mudar o país. Há um trecho no documentário que talvez represente isso muito bem, no momento antes da prisão de Lula, onde o mesmo diz que se entrega a polícia para provar que ele não é o mal que assola o país e talvez essas pessoas que compartilham dessa opinião um dia enxerguem a duras penas a verdade dos fatos

Independente da posição política do expectador, fica claro que Lula é um dos lados na qual o país se dividiu, o outro é do atual governo do Brasil que tem como líder a representação de tudo de ruim que um político pode ter, inclusive, de lutar por um tipo de sistema que já caiu há muitos anos atrás junto com uma Ditadura Militar. São duas frentes irreconciliáveis e sem previsão para um fim. O trecho final do documentário reforça seu papel de causar reflexão, mesmo que pessimista, sobre o futuro. O documentário tem produção caprichada e chega no momento certo para tentar resgatar um pouco de serenidade desse cenário tenso que vivemos atualmente. 

"Um escritor grego disse uma vez que a democracia só funciona quando os ricos se sentem ameaçados, caso contrário o poder vai de pai para filho, de filho para neto, de neto para bisneto e assim sucessivamente, somos uma república de famílias, umas controlam a mídia outros os bancos... de vez em quando acontece dela se cansar da democracia do estado de direito. Então, como lidar com a vertigem de ser lançado em um futuro que parece tão sombrio quanto nosso passado mais obscuro? O que fazer quando a máscara da civilidade cai e o que se revela é uma imagem das mais assustadoras de nós mesmos, de onde tirar forças para caminhar entre as ruínas e começar de novo."   (Trecho narrado pela diretora Petra Costa.)


Vale Ver !


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