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'Bar Doce Lar' e a importância das referências | 2022

NOTA 6.5

Por Alan Ferreira @depoisdaquelefilme 

Quando estreou na direção de longas-metragens em 2002 com “Confissões de Uma Mente Perigosa”, George Clooney chamou a atenção pela forma como conseguiu dar energia ao roteiro do já consagrado Charlie Kaufman e ainda nos brindar com uma grande performance da revelação masculina daquele ano, Sam Hockwell. Sua consolidação como realizador veio três anos mais tarde, com “Boa Noite e Boa Sorte”, projeto pelo qual conquistou algumas indicações ao Oscar, incluindo a de Melhor Direção. Desde então, seu cinema se pautou por um forte teor crítico, tendo a ironia como principal esteio. No entanto, em seus trabalhos mais recentes por trás das câmeras, esse viço temático e estético foi se diluindo. Se em “Céu da Meia-Noite”, Clooney viajou pelo vácuo enquanto vislumbrava no horizonte a profundidade de um Tarkovski, neste “Bar Doce Lar”, é possível perceber uma pegada já livre de maiores pretensões.

Adaptação do livro de memórias de J. R. Moehringer, o filme traz uma típica história de formação, daquelas que falam da trajetória de amadurecimento de jovens rapazes, como muitas que se tornaram populares em romances do início do século XIX. Nesta, acompanhamos o pequeno J.R., um menino que sofre com a ausência do pai radialista e que tem na figura do tio, dono de um bar, a representação da figura paterna que tanto lhe faz falta. É no Dickens, local onde se respira o ar inspirador dos livros – em meio a doses de whisky e canecas de cerveja – que o garoto, atento às preciosas indicações literárias e aos conselhos disparados pelo personagem vivido por um carismático Ben Affleck, vai se constituir como homem e descobrir sua vocação como escritor.

O primeiro ato traz o pequeno Daniel Ranieri (que parece ter sido escolhido por possuir traços que lembram o próprio Clooney) na pele do protagonista. Já na maior parte da rodagem, é Tye Sheridan, mais conhecido por seu papel em “Jogador Nº 1”, o incumbido de personificar um J.R. prestes a iniciar seus estudos na Universidade de Yale, onde se encantará pela bela Sidney. Para completar a gama de pessoas que, em algum nível, influenciaram a vida do rapaz, temos uma família disfuncional, cujo tratamento dado pelo roteiro de William Monahan fornece, na construção de seus componentes, boa parte dos clichês deste tipo de produção. Assim, temos, além dos já mencionados menino fofo de olhos tristes e tiozão cool, a mãe esperançosa e o avô sem filtro, encarnados, respectivamente, por Lily Rabe e Christopher Lloyd.

Ademais, o maior incômodo durante a sessão de “Bar Doce Lar” (fora ser nomeado por aqui com mais uma daquelas traduções sofríveis) é que o grande drama de J.R. – sua relação com o pai – jamais envolve o espectador a ponto de deixá-lo emocionalmente engajado. Faltou uma melhor lapidação na progressão (e na resolução) desse imbróglio, que acaba se resumindo a uma eterna explicação acerca das iniciais que formam o nome do protagonista, e de alguns encontros sem qualquer impacto com o progenitor vivido pelo opaco Max Martini.

É até compreensível que, após o fiasco da incursão por um projeto mais filosófico, a atitude de Clooney ao se dedicar a um legítimo coming of age, através de uma história com a qual claramente se identifica. Mas, se um conflito é apresentado e martelado com frequência ao longo do percurso de amadurecimento, ele precisa ser bem resolvido dramaticamente. E não é o que ocorre aqui.  Não há catarse no curto embate que nos oferece. Por isso, “The Tender Bar” (no original) se apresenta como um filme que jamais altera sua tessitura dramática, não sendo capaz de criar uma jornada cativante, muito menos de discutir com o mínimo de lastro sobre a importância das referências na vida de alguém, sobretudo quando estas não vêm de quem deveria plantá-las, e os efeitos (brandos aqui) de possíveis ausências. Um aperitivo que desce macio, mas que não reanima.  


Vale Ver Mas Nem Tanto!



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