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Especial : 10 anos de 'Relíquias da Morte': Harry Potter continua relevante?

Por Vinícius Martins @cinemarcante 


"E ele cuspiu na cara de Minerva"

15 de Julho de 2011. Uma sexta feira. Há exatos 10 anos 'Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2' estreava nas telonas mundo afora fazendo muito barulho, levando uma legião de fãs a se reunirem para dar aquele adeus ao bruxo britânico que foi o ícone da adolescência de tantas milhares de pessoas. O "evento de uma geração" (como se anunciava nos trailers) chegava aos cinemas com requintes de nobreza, uma grande estrela, que logo chegaria ao posto de 3° filme de maior bilheteria de todos os tempos, ficando atrás apenas de 'Avatar' (2009) e 'Titanic' (1997), ambos de James Cameron. Claro, o sucesso de Harry Potter foi superado, como bem sabemos. Logo no ano seguinte, em 2012, 'Os Vingadores' tomou sua colocação no pódio e jogou 'Relíquias 2' para a quarta posição. Hoje em dia ele não está nem entre as 10 maiores bilheterias, já que tantos filmes da Marvel foram alcançando a casa do bilhão desde o primeiro filme dos Vingadores. E agora, em meio a uma pandemia que insiste em perdurar, fizemos o exercício de revisitar o mesmo dia uma década atrás para discutirmos se a história envelheceu bem e, principalmente, se ela continua importante para os dias atuais. Comecemos com uma pergunta para sua consideração pessoal: Harry Potter ficou obsoleto?

É irônico que Hogwarts, que era tida por muitos como o lugar mais seguro do mundo bruxo (mais até do que Gringotes, segundo o grande Hagrid), fosse palco da maior e mais importante guerra que o universo mágico criado por Rowling já teve. Vê-la em chamas, sendo reduzida a uma pilha de entulhos, foi algo doloroso de ler e ainda mais de se assistir no cinema. A jornada do jovem bruxo levantava bandeiras como o respeito às diferenças, a não exploração de inferiores com a sobreposição de força, a constante busca por justiça, o confronto contra políticas opressoras, a exaltação das boas amizades e, principalmente, uma guerra ideológica do bem contra o mal, que se tornou física com o conceitual confronto entre um malfeitor e uma criança inocente. As virtudes que a trama de Harry Potter entregaram aos seus leitores (e espectadores também) foram mensagens singulares que comoveram milhões de pessoas, e isso se dá graças ao brilhantismo do intelecto de sua criadora, J.K. Rowling. Contudo, olhando para 'Relíquias 2' hoje em dia, assumo em meu gosto pessoal que considero o filme excelente e péssimo ao mesmo tempo.

Já na ocasião do lançamento, ao sair da sessão de estreia, lembro de ter conversado com uns amigos sobre as mudanças que o roteiro fez em relação ao seu material original. Claro, sabíamos que era uma adaptação, mas ainda assim alguns pontos não  combinavam com a ideologia da obra - como, por exemplo, a imagem de que Voldemort era meramente um mortal no fim das contas. Enquanto no livro seu corpo cai para trás sem vida após o ricochetear da maldição da morte que ele lança sobre Harry, aqui vemos ele se desintegrar no ar como cinzas ao vento. Até mesmo o discurso que antecedeu esse momento, onde Voldemort se vangloria sobre ter derrotado Potter dizendo que "ele implorou para não morrer" (uma descarada mentira) revela muito sobre o caráter e os receios do vilão e foi deixado de fora do clímax da obra cinematográfica. Isso sem falar em uma cena que esperei por anos para assistir, em que Amico Carrow cospe na cara de Minerva e Harry sai da capa de invisibilidade lançando no comensal uma maldição Cruciatus. No filme essa cena foi trocada por um duelo entre Minerva e Snape (que ficou boa e empolgante, por sinal), mas não é nem de longe melhor do que a cena em que Harry defende uma professora.

Após 2011, o universo mágico cresceu e se expandiu para o teatro com a peça 'Harry Potter e a Criança Amaldiçoada', e também propôs uma viagem no tempo de volta às origens do mundo que Harry conheceu, regredindo à década de 1920 e visitando a velha Nova York com Newt Scamander em 'Animais Fantásticos e Onde Habitam' (2016). Contudo, esse spin-off da franquia principal teve (e ainda tem) sérios problemas em sua produção. Jhonny Depp, que tinha sido escalado como Grindelwald (e que será substituído por Mads Mikkelsen), está até hoje em guerra judicial contra a ex-esposa Amber Heard por conta de acusações de abusos (por ambas as partes). Ezra Miller, que revelou-se como um possível irmão de Dumbledore ao final do segundo filme, 'Os Crimes de Grindelwald' (2018), entrou em luta corporal com uma fã em um restaurante e virou manchete negativa em vários tabloides por sua agressão. E para piorar, as declarações da autora J.K. Rowling sobre suas opiniões pessoais quanto a pessoas transsexuais geraram descontentamento e revolta em alguns milhares de fãs. Tudo parece estar conspirando para o término da era Potterhead nos cinemas, mas ainda assim a Warner decidiu levar adiante o plano de fazer um terceiro filme (seriam 5 no total), provavelmente para dar encerramento ao ciclo de Scamander no cinema. Porém, independente dos problemas atuais, somos levados a questionar se o legado deixado 10 anos atrás ainda persiste.

Voltemos então para a pergunta de ouro: Harry Potter continua relevante ou já não importa mais? A resposta que considero ser correta é que sim, meus queridos, Harry Potter continua relevante sim. Os discursos de enfrentamento à segregação e ao preconceito são ainda hoje, infelizmente, não somente importantes como também necessários para abrir mentes fechadas para o processo mais rico da humanização: a empatia para com o próximo. O entrelaçamento político das subtramas enquanto o mal ascende ao poder é equiparável ao cenário que temos visto desde sempre, com governantes cada vez mais corruptos e despreparados ocupando cargos altíssimos em prol do auto favorecimento. E o amadurecimento forçado, condicionado por forças externas maiores do que as do indivíduo, é algo que ajuda a resistir aos tempos insanos da pandemia atual. Harry Potter é, hoje mais até do que uma década atrás, uma obra essencial para os jovens leitores e cinéfilos. Leia Harry Potter, assista Harry Potter, e principalmente entenda Harry Potter. Das dificuldades é que tiramos lições para a vida e aprendemos a ser mais fortes, assim como a difícil realidade do período da Covid que teima em não terminar. E escolha sempre o bem. Lembre-se das palavras de Alvo Dumbledore: "São as nossas escolhas que definem quem realmente somos, muito além das nossas qualidades". 'Harry Potter' está aí para te dar uma aula de como ser uma pessoa melhor.

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