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Um conjunto residencial se transforma em nave espacial em 'Edifício Gagarine' | 2021

NOTA 7.5

Por Rogério Machado 

Entre as grandes dádivas da sétima arte estão as infinitas possibilidades de tratar temas sociais com lirismo, tirando dessas histórias o peso da realidade sem deixar de exprimir o tom crítico que elas podem produzir. 'Edifício Gagarine'que integrou a Seleção Oficial de Cannes e a programação do Festival Varilux de Cinema Francês em 2020, denuncia a gentrificação em bairros de Paris e a especulação imobiliária, assim como a falta de oportunidade que geralmente rodeia essas comunidades.


O longa acompanha a história de Yuri (Alséni Bathily), um adolescente que vive na Cité Gagarine, um conjunto habitacional de classe média baixa no subúrbio de Paris. O jovem abandonado pela mãe e órfão de pai sonha com o dia em que seguirá os passos de seu ídolo, o cosmonauta Yuri Gagarin. Enquanto desenvolve uma cápsula espacial para sua aventura, confronta-se ao fato que o prédio onde vive corre o risco de ser demolido.

Porém, antes que o processo de demolição avance, ele juntamente com seus amigos promovem ações para revigorar o lugar e o tornar habitável, para que a fiscalização não chegue ao veredito que todos temem. O conjunto habitacional que um dia abrigou moradores de indústrias da região fora desapropriado em função da evasão dessas mesmas empresas, e hoje,  a grande maioria que vive ali, invadiu por não ter onde morar. 

O contexto social existe, mas a direção conduz sua trama pelas vias da fantasia. O grande conjunto, que existiu de verdade e ganhou o nome do cosmonauta soviético (o primeiro homem no espaço), lá esteve pessoalmente para inaugurá-lo em 1963, e é homenageado pelas lentes da dupla Fanny Liatard e Jérémy Trouilh, que por sua vez subvertem a narrativa e mudam (aos olhares do protagonista ao menos) aquela realidade desoladora e a transforma em uma espécie de estação espacial, convertendo suas ações de sonhador em um ato de resistência. 

'Edifício Gagarine' poderia ser um desses filmes que conquistam em cheio crítica e público, mas não é enfático na crítica social e não é ousado suficiente em sua porção fantástica. No fim das contas fica a sensação que poderíamos ter presenciado uma história que gerasse um debate caloroso sobre ocupação e moradia ilegal ou quem sabe simplesmente só nos levasse a sonhar, mas a narrativa fica bem na coluna do meio. De todo jeito,'Edifício Gagarine', que acabou de chegar ao circuito comercial, pode agradar àqueles que procuram algo além do que uma sessão 'pipoca'. 


Vale Ver!





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