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'Eternos' : sinfonia espacial é, ironicamente, a obra mais mundana do MCU até agora | 2021

NOTA 9.0

Por Vinícius Martins @cinemarcante 

A epopéia de Gilgamesh é uma romantização literária cuja datação é considerada a mais antiga da história da humanidade - algo próximo do século XX a.C., segundo especialistas. Nela temos o herói do título confrontando seres míticos como o temível Humbaba e o furioso Touro do Céu, tendo derrotado ambos ao lado de seu grande amigo Enquidu. Contudo, o trecho mais lembrado popularmente é aquele que ocorre após a morte de Enquidu, lá quase no final da história, onde Gilgamesh percebe sua própria finitude e decide procurar um meio para ser eterno. A vida eterna, conforme descobre-se com Utnapishtim após uma longa viagem, não é concedida de graça - ou, melhor dizendo, não é dada sem propósito. Em 'Eternos', novo filme do Universo Cinematográfico  Marvel a chegar aos cinemas, temos um personagem que, veja só!, se chama Gilgamesh e já é Eterno. O Gilgamesh do MCU também é portador de uma força colossal, tal qual ao seu homônimo de quatro mil anos atrás, dando a entender que eles sejam a mesma pessoa. Costurando lendas e crendices populares milenares com a fantasia de sua fórmula já consolidada, vemos aqui também outras figuras mitológicas protagonizando a trama, como Ícaro e Athena, que surgem com grafias diferentes mas confirmam ser as mesmas personas no decorrer das duas horas e quarenta de duração do filme. 'Eternos' brinca com a história mundial e ensina muito sobre os múltiplos sentidos que o termo humanidade possui.

Todavia, antes de falar mais profundamente sobre 'Eternos' precisamos contextualizar a assinatura de sua co-roteirista e diretora Chloé Zhao, que em 2021 foi a grande vencedora do Oscar nas principais categorias, conquistando os prêmios de roteirista de adaptação, produtora de melhor filme e também diretora por 'Nomadland' - prêmios estes que tornaram seu nome conhecido no meio cinéfilo e apresentaram sua visão intimista para uma escala muito maior do que aquela que seu cinema independente propunha a princípio. Analisando 'Nomadland' cruamente, afirmo que ele é um filme extremamente lindo e terrivelmente chato. Ok, confesso que ele me arrancou uma ou duas lágrimas em seus últimos minutos, no relato do "papai noel", mas foi só. Um minuto de pico emocional em duas horas de marasmo. No geral, considerei a obra hipervalorizada em teor técnico (que apesar de belo e exuberante não reinventa a roda) e superestimado em seu caráter narrativo, que exige uma condição espiritual bem receptiva para que o filme não seja indigesto já em seus primeiros trinta minutos. Agora você deve estar se perguntando: qual é a relevância dessas informações para falar sobre 'Eternos'? A resposta é quase poética: para entender a obra temos que entender antes as mãos que a fizeram. Em outras palavras, é somente através da noção de mundo que Zhao carrega que poderemos absorver o sumo da catarse audiovisual que 'Eternos' é.

Você pode questionar "mas não foi a Zhao quem criou os Eternos, foi o Jack Kirby", e estará com razão; porém, deve-se considerar que os filmes do Universo Cinematográfico Marvel são baseados (e alguns inclusive apenas meramente inspirados) em seu material original, e pelo fato de o cinema ser uma mídia diferente o conteúdo também acaba sendo, por consequência, diferente - por isso dá-se então o título de adaptação. O filme é fruto da mentalidade nerd de uma cineasta até então cult, e a visão epifânica de Zhao se faz como uma explosão de frames que, se pausados, renderiam excelentes pinturas ou papéis de parede. A diretora compilou seu olhar contemplativo e humanizado ao teor fantasioso e dubitavelmente heróico dos quadrinhos da Marvel e entregou um dos melhores e mais completos filmes do estúdio, conseguindo ampliar sua mitologia e explorando de forma íntima indivíduos com capacidades sobre-humanas. A contratação de Zhao para a direção de 'Eternos' se deu muito antes de ela levar três estatuetas do Oscar para casa, o que comprova que o estúdio queria desde o começo a sua visão para o projeto e, mais uma vez, Kevin Feige acertou em sua escolha.

'Eternos' apresenta as cenas mais orgânicas dentre os quase trinta títulos que compõem o MCU. As locações são reais, fugindo sempre que possível do conforto manipulável do chroma key, e isso tem um impacto direto em tela. Cabelos esvoaçantes ao pôr-do-sol, paisagens geográficas e até mesmo a maresia à contraluz são mostrados aqui sem medo de expor as imperfeições do acaso - imperfeições, inclusive, que são louvadas em um diálogo que trabalha questões sobre o caos, a manipulação mental e o livre arbítrio com uma delicadeza emocional ímpar dentro do gênero dos filmes de super-heróis. A grande beleza do filme consiste na humanização de seres capazes de desbravar o universo que rompem com o próprio propósito com base nas crenças que aprenderam a valorizar na Terra. A nobreza deles é um debate que se estabelece com lados coerentes e nítidos, indo dos favoráveis a consumar uma missão covarde (mas necessária) até os que são contrários ao genocídio que é o meio para alcançar esse fim, e passando por aqueles que preferem se ausentar porque suas crenças e seus sentimentos geram um conflito interno que compromete o próprio julgamento acerca do que é certo ou não.

A equipe é apresentada com seus dez integrantes exóticos, todos desconhecidos do grande público e aparentemente difíceis de promover empatia, mas a excelência do roteiro leva o público a se importar com seus dilemas, suas dores e perdas e transforma este no filme mais mundano (em todos os sentidos do termo) de todo o MCU, e o resultado é belíssimo de se apreciar. Desde a coreografia elaborada com maestria até a trilha sonora composta por Ramin Djawadi (das séries 'Prison Break' e 'Game of Thrones'), 'Eternos' é um filme que não deve agradar a todos devido ao ritmo mais contemplativo, que desacelera para observar as belezas do mundo - mas não se deixe enganar; estamos diante de uma obra de arte que foge do convencional, conseguindo a proeza de mesclar o existencialismo à fórmula de gracejos dos filmes Marvel e montando, dessa forma, um filme popular com todos os méritos de um filme cult. É um filme grande demais para um gênero limitado, que está há tempos gasto pela repetição, e que infelizmente só deve receber o seu devido reconhecimento no futuro.


Super Vale Ver!



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