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"Águas Profundas": o retorno frio e insípido de um veterano do thriller erótico | 2022

NOTA 6.0

Por Alan Ferreira @depoisdaquelefilme

Fazia pouco mais de duas décadas que Adrian Lyne não acrescentava uma obra a sua filmografia. E essa duradoura hibernação, interrompida com este "Águas Profundas", pode nos fazer refletir sobre o puritanismo que acometeu Hollywood nas últimas décadas. Dono de uma câmera interessada no corpo desde sua estreia com "Flashdance - Em Ritmo de Embalo", o cineasta foi vendo o moralismo ganhar cada vez mais força dentro de uma indústria que, já há alguns anos, depende de heróis que escondem seus músculos por trás de uniformes reluzentes para se manter viva. Assim, questionar a crise da moralidade norte-americana através de histórias carregadas de erotismo, especialidade do realizador de "Atração Fatal", foi ficando fora de moda, sobretudo após os escândalos de assédio sexual dos quais, entre outras consequências, decorreu o movimento #MeToo.

O roteiro de Sam Levinson ("Euphoria") e Zach Helm ("Mais Estranho Que a Ficção"), inspirado no romance de Patricia Highsmith, consegue ser atento aos novos tempos e promove algumas curiosas mudanças na dinâmica entre os players do praticamente abandonado filão thriller erótico, cuja última incursão de destaque foi a insossa adaptação da trilogia "50 Tons de Cinza". Se antes, traições e dinheiro eram elementos que colocavam em xeque pessoas que viviam num aparente bem-estar social, como ocorria em "Proposta Indecente"; ou assassinatos em decorrência do ciúme - mote de "Infidelidade" - davam algum tempero a relações desgastadas; em "Águas Profundas", o casal Vic e Melinda Van Allen (Ben Affleck e Ana de Armas, respectivamente) não possui qualquer preocupação financeira, graças ao bem-sucedido aplicativo projetado por ele, e tem muito do jogo de manutenção do interesse mútuo alimentado justamente pelas puladas de cerca dela. 

Claramente, Lane abre mão de qualquer mistério em nome da observação do comportamento doentio daqueles seres aparentemente torturados pela perfeição. Ricos, lindos e invejados, pulando de festa em festa, Vic e Melinda se complementam numa constante lógica pautada pelo estímulo e pela reação, na qual a carência proveniente do tédio de quem tem tudo e a psicopatia se misturam. Tal abordagem já seria o suficiente para dar a "Águas Profundas" um lugar de destaque em meio ao marasmo vigente na indústria. No entanto, falta tesão. As poucas cenas de sexo do longa não aproveitam a química existente entre o casal de protagonistas (que até bem pouco tempo atrás namoravam na vida real) e até mesmo os momentos em que a esposa provoca ciúmes no marido com cada novo ou velho "amigo" soam repetitivos e sem graça, num acúmulo de canastrões em cena para rivalizar também nesse quesito com o Batman de Zack Snyder. No lugar da ambiguidade e da tensão carnal, Lane investe muito tempo na composição de um tipo esquisito que, entre outras excentricidades, cria caracóis em casa (!), o que também é prejudicado pelas limitações de Affleck como ator.    

Além disso, o já citado roteiro exige uma boa vontade sobre-humana do espectador em nome da validação desse estudo comportamental e passa a ignorar a verossimilhança em várias passagens, como na que Melinda tem a sagaz (e quase mediúnica) ideia de fazer um piquenique exatamente no mesmo local onde Vic acabara de deixar uma nova vítima, ou na mais improvável sequência de perseguição dos últimos tempos envolvendo uma bicicleta e um carro, que arremessa de vez o filme no lugar-comum da maioria dos suspenses exibidos no Supercine. Isso sem falar na forma quase inacreditável como a polícia, chamada para agir em determinada cena, é sumariamente varrida da trama, já que sua simples existência colocaria em risco os demais crimes que ocorrem após a sua primeira e pífia intervenção. Até o mestre Hitchcock, que odiava policiais devido a um trauma de infância, torceria o nariz para tamanha nulidade.

Primeira grande aposta do Amazon Prime Video em 2022, "Deep Water" (no original) é um mal ajambrado exemplar de um subgênero adormecido, no qual seu realizador já dera mostras de uma (até agora) sólida habilidade. Raso e frio, tanto no viés psicológico quanto na erotização de seus personagens, o retorno de Adrian Lyne só consegue apresentar algo fora da caixa quando abre espaço para Trixie, filha de Vic e Melinda, romper com aquele círculo vicioso. Embora possua bem menos tempo de tela, a menina vivida por Grace Jenkins apresenta camadas suficientes para torná-la - se fizermos vista grossa para alguns diálogos absurdos - o personagem mais intrigante e carismático de toda aquela bagunça. Fora isso, o que temos é uma produção inofensiva, incapaz de sujar com alguma poeira o hoje imaculado e insípido cenário cinematográfico hollywoodiano.


Vale Ver Mas Nem Tanto!




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