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'Até os Ossos' mistura terror e romance com tempero peculiar | 2022

NOTA 8.5

Por Rafa Ferraz @issonãoéumacrítica 

Baseado no romance homônimo escrito por Camille DeAngelis, ‘Até os Ossos’ à primeira vista possui uma temática bastante comum, afinal, o “Coming-of-Age” está longe de ser uma novidade. O próprio Luca Guadanino, que assume a direção, tem como maior sucesso na carreira um longa desse gênero. ‘Me Chame pelo seu Nome’ tem como foco a adolescência, seus conflitos e desejos, a perda da inocência, as dores do amadurecimento e por fim, a difícil transição do jovem para a vida adulta. Dito isso, essa breve descrição seria suficiente para contextualizar o novo trabalho do cineasta, exceto pela controversa inserção do canibalismo, um dos maiores tabus da sociedade, não apenas por configurar crime, como também por ser um ato de desumanidade extrema, um desvio moral e social. No entanto, a despeito de tudo, a prática canibal é explorada no entretenimento e os números mostram que para além da repulsa, existe certo fascínio pelo tema e não é de hoje. Assim como o já citado “Coming-of-Age”, a antropofagia estava presente nos contos da idade média, na literatura clássica e contemporânea, no cinema novo de Nelson Pereira dos Santos e no gore de George Romero. A genialidade de Guadanino não está na releitura do que foi dito, mas na inserção do elemento romântico, que de maneira surpreendente não destoa da proposta nem diminui o peso das ações, muito pelo contrário, o romance estabelece conexão necessária para a imersão e identificação para com aqueles que sofrem do próprio mal que praticam.

Na trama acompanhamos Maren Yearly (Taylor Russell), uma jovem que luta para controlar seus impulsos, porém, após ser abandonada pelo pai, se vê sozinha e à margem da sociedade. Com apenas alguns dólares no bolso e pistas do paradeiro da mãe, ela parte para uma jornada em busca de segredos do passado. No caminho encontra Lee (Timothée Chalamet), por quem se apaixona, e juntos compartilham descobertas, traumas e perigos.

Apesar da premissa ser um chamariz, o filme não se limita a esse aspecto e tem também na forma, muitos méritos. Por se tratar de um ‘road-movie’ temos as tradicionais e muito bem fotografadas passagens que remetem a esse país de grandes distâncias e lindas paisagens. Os planos mais abertos abordam bem o sentimento de isolamento quando necessário. O ritmo é bom, contudo, a transição do segundo para o terceiro ato é prolongada demais, deixando ao fim, uma sobra de pelo menos 15 minutos desnecessários. Já o elenco - o novo queridinho de Hollywood Timothée Chalamet e a ainda não tão conhecida Taylor Russell - tem grande atuação. A química é evidente e cheia de sutilezas. No início, uma simples troca de olhares diz muito do que precisamos saber e uma vez feita a conexão, eles passam a compartilhar uma trajetória de encontros e desencontros. Entretanto, o maior destaque vai para Mark Rylance. Mesmo como coadjuvante, sua presença eleva o nível da produção a ponto de um movimento de canto de boca mexer com nossos nervos.

No geral, a adolescência é um dos períodos mais caóticos do nosso desenvolvimento, por isso, a metáfora aqui utilizada não parece tão absurda. É uma fase rica em aprendizados, todavia repleta de dúvidas, medos, confusão, necessidade de aceitação, um profundo apetite por sensações e sentimentos, mas que vem carregada de culpa por não saber bem o que fazer com essa fome que não cessa. Estamos diante de uma experiência visceral e que exige estômago, mas também é doce e altamente recompensadora.


Vale Ver!



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