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'Luther: O Cair da Noite' : Idris Elba volta ao papel do (melhor) investigador em filme adaptado de série | 2023

NOTA 6.0

Por Maurício Stertz @outrocinéfilo 

O investigador John Luther parece saído de um filme Noir, estilo cinematográfico dos Estados Unidos na década de 1940, não fosse pelo sotaque britânico carregado. A fidelidade aos mais próximos, como família e amigos, representa a antítese perfeita à sua moral dúbia com todos os demais, quando leva até as últimas consequências cada um dos casos em que é responsável. Idris Elba, cotado a assumir o pragmatismo charmoso de James Bond no futuro da franquia, ainda carrega a malícia das ruas de Baltimore, quando interpretava Stringer Bell em 'The Wire', para formular um investigador cheio de camadas a serem descompostas, desde a destreza em seu trabalho até o arco mental por que passa. Esse é o personagem por trás de Luther, série britânica da BBC com cinco temporadas de poucos episódios que ganha agora um filme produzido pela Netflix. 

A modernidade traz para a trama de 'Luther: O Cair da Noite' uma criminalidade facilitada pela tecnologia, tema recorrente nos últimos anos no gênero. Um assassino em série, interpretado pelo sempre excêntrico Andy Serkis, cria um complexo esquema de chantagens permitidas pela tecnologia para levar suas vítimas às últimas consequências em um plano bem arquitetado. John Luther, por outro lado, acusado finalmente pelas consequências de fazer justiça à margem da lei, muitas vezes, assistindo a tudo isso da prisão.

O desenrolar da trama, a contar o carisma de Luther em seus sobretudos acinzentados tão característicos, coloca o fã da série de volta a esse universo tão interessante e complexo. Acontece que a linguagem cinematográfica o acaba afastando dos conceitos extraídos pela série, seja pelo caráter episódico que criava folego para que as resoluções dos crimes e a mística da polícia londrina fossem pouco a pouco desvendadas ou mesmo o maior tempo, dentro da linguagem própria à série, de combinar os eventos a serem investigados com um estudo preciso do personagem. Um dos ‘culpados’, além da diferença específica de adaptação literal de uma série, é manter o filme (no TOP 10 do catálogo por semanas) como uma nova história que possa abocanhar uma fatia maior de  público, mesmo àqueles que nunca haviam visto John derrubando portas por Londres ou correndo atrás de suspeitos no fluxo inverso da cidade. É uma decisão mercadológica, com certeza. O problema está em devolver o personagem aos seus passos iniciais e ter de conquistar um nova parcela de pessoas. 

Não fosse apenas isso, o diretor Jaime Payne, que dirigiu alguns episódios da série, poderia ter se saído melhor. Além da trama arrastada por mais de duas horas, o longa metragem fica refém dos clichês de filmes de investigação, das resoluções rápidas (uma debaixo da água que vai contra qualquer princípio lógico, cá entre nós) e principalmente de construções pouco convincentes de personagens secundários, que não ganham sequer um fio de empatia em sua maioria, como desperdiçar um grande potencial de Cynthia Erivo. 

Por estes motivos o filme não serve à história de Luther, mas atua como um começo cinematográfico pouco convincente, funcionando, para não ser injusto, apenas quando evoca a atmosfera londrina em Luther. Nenhum arco é suficiente. 'Luther: O Cair da Noite' pouco tem de Luther, o investigador que luta contra si mesmo, sempre que precisa. Por fim, o diretor, prefere a neutralidade das ações e acaba colocando uma chamativa tarja “genérica” em um dos investigadores mais interessantes do mundo das séries policiais, que é o pior crime que John Luther poderia enfrentar a esta altura.





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