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'Resgate 2' : diretor Sam Hargrave reafirma sua qualidade no cargo em filme que revive o cinema planejado | 2023

NOTA 9.0

Eu não tô indo negociar

Por Vinícius Martins @cinemarcante 

Quanto vale uma vida? Os mais moralmente aparecidos diriam que toda vida importa igualmente, enquanto os mais honestos e realistas responderiam que depende de quem é a vida. Quando se há vínculos entre os indivíduos, sejam esses vínculos emocionais, familiares ou dependentes, alguns valores e prioridades tendem a ser atribuídos uns sobre os outros. O diretor Sam Hargrave e o roteirista Joe Russo entendem a complexidade dessas relações em um contexto de guerrilha, e mostraram esse conhecimento no excelente 'Resgate', que chegou ao catálogo da Netflix pouco mais de três anos atrás. Agora, em uma sequência ainda mais ousada, esse debate se amplia em meio a tiros, porradas e bombas que se fazem em uma série de cenas de ação onde valores são debatidos e posições são assumidas.

A produção novamente faz uso da inocência e da malícia das crianças para colocá-las como um fruto do meio, levando a uma reflexão sobre culpas e culpados. O filme ainda imprime um lembrete de que até os caras maus já foram crianças algum dia, mas é esperto o suficiente para não cair na armadilha de relativizar o mal ou defendê-lo como prática tolerável. Para tanto, seu discurso se embasa na violência para combater a violência, sob a promessa de um apaziguamento através da ofensa espelhada. Não, o filme não é moralista, pelo contrário; sua proposta, mesmo apesar de uma aparente contradição, é reforçar a ideia de que o mal existe e que precisa ser combatido. Desse modo, discursos sobre radicalismo e aliciamento entram em choque com a dinâmica do legado familiar e do crime de honra, criando uma jornada onde o resgate se torna uma fuga frenética que na verdade almeja ser um reencontro com o passado - ou com o futuro -, mas sempre relacionado à necessidade que cada um tem de estar com os seus.

Hargrave explora a câmera em facetas práticas e ainda mais ousadas, criando planos-sequência para dar sequência a outros planos-sequência. Um dos maiores méritos do filme reside em suas lutas minuciosamente coreografadas, nos combates armados milimetricamente calculados e na junção convincente de efeitos práticos e computação gráfica que dão uma atmosfera tensa que cresce com a ansiedade inconsciente devido à ausência de cortes aparentes. Tudo tem que estar em seu devido lugar, em seu devido tempo, com um planejamento tão cuidadoso que, confesso, há anos não via um zelo tão grande para um filme de ação - nem mesmo nos últimos lançamentos da franquia 'John Wick'. Com um nítido planejamento de sequência, 'Resgate 2' é um excelente meio do caminho sem ser um episódio filler; o filme se basta em si, mas é parte de um todo que promete ser bem maior. Aguardemos o fim do hiato da carreira de Chris Hemsworth e saudemos o cinema planejado com todo o louvor que ele merece.






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