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Dica Reserva Imovision : 'Sonata de Tóquio' | 2008

Um retrato de uma geração subjugada pelo progresso

Por Rafa Ferraz @issonãoéumacrítica 


O cinema contemporâneo é frequentemente associado à fantasia, sendo descrito muitas vezes como a arte onde tudo é possível. De fato, a criação de universos e a capacidade de reimaginar a realidade é um processo que o cinema se sobressai com maestria, porém é importante lembrar que ele nasceu e se destacou devido sua superioridade técnica em retratar a realidade. Os primeiros longas nada mais eram do que vídeos curtos de situações do cotidiano, como o famoso ''A Chegada do Trem na Estação'', que com apenas 50 segundos impressionou o público no longínquo ano de 1886. Com o passar do tempo o cinema criou e aperfeiçoou sua linguagem, e, embora novas técnicas tenham proporcionado a exploração do mundo da fantasia, ele nunca abandonou sua habilidade de abrir janelas para diferentes realidades ao redor do mundo, muitas das quais conhecemos apenas superficialmente e, por vezes, distorcidas pela influência do senso comum. 


Para muitos de nós, ocidentais, a perspectiva sobre o Oriente frequentemente assume uma postura de estranheza ou de estereótipo. Não é incomum assistirmos reportagens na televisão que caracterizam os costumes orientais como tabus ou até mesmo os rotulam como exóticos. O Japão, mais do que qualquer outro país asiático, está gravado em nosso imaginário popular do ocidente graças aos personagens que imortalizou nos animes e videogames, mas há também uma indústria cinematográfica de extrema relevância histórica e diversos  cineastas como Yasujiro Ozu, Akira Kurosawa e Kenji Mizoguchi retrataram e desmistificaram tradições que iam desde os tempos mais remotos, com Samurais e Imperadores, até o período pós guerra, captando a melancolia e a decadência de uma sociedade que passou por profundas transformações. Em "Sonata de Tóquio", Kiyoshi Kurosawa segue os passos desses renomados nomes do cinema japonês e, de maneira magistral, compõe os traumas de uma geração antes devastada pelas armas e hoje subjugada pelo progresso.  

Na trama somos apresentados aos Sasaki, uma tradicional família japonesa. O marido, Ryuhei (Teruyuki Kagawa) acaba de ser demitido do emprego e guarda esse segredo da família. A matriarca, Megumi (Kyōko Koizumi) é a típica dona de casa cuja vida gira em torno dos afazeres domésticos. O filho mais velho, Takashi (Yu Koyanagi), próximo de completar a maior idade se vê cada vez menos pertencente à família, já o mais jovem, Kenji (Kai Inowaki), nutre o sonho de aprender piano, mas quando consegue os meios para realizar seu desejo, precisa esconder dos pais uma vez que Ryuhei se opõe ao projeto por julgá-lo mero capricho. 

Primeiramente é a capacidade de síntese do realizador uma vez que a premissa, os personagens centrais e as problemáticas são apresentadas em menos de dez minutos de rodagem. O mais impressionante é que essa objetividade foi possível sem uma linha de diálogo expositivo. Os enquadramentos por sua vez contam essa história de forma bastante inventiva. O longa começa no escritório de Ryuhei, de design moderno e cores neutras, onde vemos a chegada de um grupo jovens recém-contratados. Na casa dos Sasaki, pouco iluminada e de arrumação impecável, Megumi executa as tarefas domésticas de maneira meticulosa. O filho mais velho percorre a casa sem que seu rosto seja enquadrado, trafegando pelo local como quem está de passagem. O mais novo tem o olhar distanciado, desconectado, mesmo estando em uma sala de aula rodeado por crianças da mesma idade.  

À medida que o longa avança, a cidade ganha protagonismo com planos mais amplos em que a arquitetura urbana compõe imagens muito ilustrativas. Um exemplo ocorre quando Ryuhei encontra um amigo e ambos iniciam uma conversa. Durante o diálogo, notamos uma quantidade considerável de pessoas ao redor em situação semelhante à dos dois. Sabemos disso pois todos se comportam iguais, se vestem iguais e até alguns maneirismos são os mesmos. O filme, em grande parte, é permeado por uma atmosfera de desamparo, especialmente pelo tédio que resulta da repetição constante. Isso culmina em momentos de fúria e, mais para adiante, em ações inesperadas, embora condizentes com o clímax proposto. Apesar de surpreendentes, esses eventos não soam implausíveis, afinal, por mais silencioso que seja, tudo se espera do desespero humano. 

Kiyoshi Kurosawa é mais reconhecido no ocidente pelas suas contribuições ao gênero de terror, com destaque para “Kairo”, lançado em 2001, que aborda o surgimento de novos medos associados ao avanço da tecnologia, desenvolvendo temas como solidão, depressão e suicídio. Ao analisar a ascensão de uma sociedade hiper conectada, Kurosawa previu o aumento da alienação que se intensificou com a disseminação das redes sociais.  Com "Sonata de Tóquio", o diretor mais uma vez demonstra sua percepção visionária. Mesmo após uma década e meia desde o lançamento, podemos observar como o processo por ele retratado se intensificou. Isso se manifesta no fortalecimento das políticas neoliberais, na marginalização do papel do Estado e na extrema individualização das pessoas, inclusive no mercado de trabalho. Nesse sentido, apesar da diferença entre os gêneros, “Sonata de Tóquio” com todo seu realismo soa tão (ou mais) assustador do que os fantasmas de “Kairo”. 






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